Quando um paciente de 32 anos chega ao consultório com dor no peito, a primeira reação de muita gente ainda é a mesma: “mas você é tão novo”. Esse pensamento, embora compreensível, é perigoso. Nos últimos anos, tenho atendido cada vez mais adultos jovens com quadros cardíacos que, há duas décadas, seriam raros nessa faixa etária.
Os números confirmam o que vejo na prática clínica. Segundo dados do SUS, as internações por infarto em pessoas com menos de 39 anos mais que dobraram nos últimos 16 anos. E o Ministério da Saúde aponta um crescimento de aproximadamente 180% nos casos entre jovens adultos desde o início dos anos 2000.
Esse texto existe para quebrar um mito que pode custar vidas: a ideia de que infarto é doença de idoso.
Por que o infarto em jovens está aumentando?
O coração não envelhece sozinho. Ele envelhece com os hábitos de quem o carrega.
A geração atual de adultos entre 20 e 40 anos cresceu cercada de alimentos ultraprocessados, rotinas sedentárias, jornadas de trabalho exaustivas e, mais recentemente, cigarros eletrônicos e bebidas energéticas. Tudo isso forma um ambiente propício para o desenvolvimento precoce de doenças cardiovasculares.
O papel da obesidade e do sedentarismo
O Brasil vive uma epidemia silenciosa de sobrepeso. E onde há excesso de peso, geralmente aparecem hipertensão, diabetes tipo 2 e colesterol elevado, a tríade que acelera o processo de aterosclerose, ou seja, o acúmulo de placas de gordura nas artérias coronárias.
O sedentarismo potencializa esse risco. Quem passa a maior parte do dia sentado, dorme mal e não pratica nenhuma atividade física regular está construindo, sem perceber, um ambiente interno favorável ao infarto.
Cigarro eletrônico: o novo vilão cardiovascular
Muitos jovens abandonaram o cigarro convencional, mas adotaram o vape como uma alternativa “menos prejudicial”.
O cigarro eletrônico pode conter concentrações de nicotina maiores que o cigarro tradicional, além de substâncias químicas cujos efeitos a longo prazo ainda estamos estudando. O que já sabemos é que a nicotina, independentemente da forma como é consumida, prejudica o endotélio, a camada interna das artérias, e eleva o risco de eventos cardíacos.
Uso de drogas e anabolizantes
O consumo de maconha pode aumentar em até cinco vezes o risco de infarto. Isso porque a substância altera a frequência cardíaca, reduz o fluxo de oxigênio ao músculo cardíaco e pode desencadear espasmos nas artérias coronárias.
Já os anabolizantes, usados por uma parcela crescente de jovens que frequentam academias, promovem alterações graves no colesterol, causam hipertrofia desproporcional do coração e predispõem à formação de coágulos.
Estresse crônico e saúde mental
Esse é um fator que ainda é subestimado, mas que aparece com frequência entre pacientes mais jovens. O estresse crônico mantém o organismo em estado de alerta constante, com cortisol elevado, pressão arterial instável e inflamação sistêmica, um terreno fértil para doenças cardíacas.
A solidão, o burnout e a ansiedade não estão “apenas na cabeça”. Eles têm consequências físicas reais e mensuráveis no sistema cardiovascular.
Hipertensão: O inimigo silencioso dos jovens
A pressão alta não dói. Não avisa. E é justamente por isso que é tão perigosa.
Estima-se que cerca de 10% dos adultos entre 18 e 39 anos já apresentam hipertensão arterial ou colesterol elevado. E o dado mais preocupante: menos de 30% dos pacientes diagnosticados com hipertensão seguem o tratamento corretamente.
Ficar sem tomar o remédio porque “me sinto bem” é uma das frases que mais escuto, e uma das que mais me preocupa. A pressão alta, quando não controlada, vai destruindo silenciosamente as paredes das artérias, aumentando o risco de infarto e AVC décadas antes do esperado.
Se você tem pressão alta e ainda não iniciou (ou abandonou) o tratamento, essa é a hora de reconsiderar.
O peso da genética: Quando a família é um fator de risco
Ter um pai, mãe, irmão ou irmã que sofreu infarto antes dos 55 anos é um sinal de alerta que não pode ser ignorado.
A predisposição genética pode se manifestar de várias formas: hipercolesterolemia familiar, distúrbios de coagulação, ou simplesmente uma tendência herdada ao acúmulo de placas nas coronárias. Em muitos desses casos, o jovem não se encaixa nos “critérios tradicionais de risco”, não é obeso, não fuma, não bebe em excesso, e por isso não é investigado com a profundidade necessária.
Se você tem histórico familiar de doença cardíaca precoce, procure um cardiologista mesmo que se sinta completamente saudável. A avaliação genômica cardiovascular, disponível hoje, pode identificar riscos antes que qualquer sintoma apareça.
Como prevenir o infarto antes dos 40
A boa notícia é que a grande maioria dos infartos em jovens pode ser evitada. Cerca de 90% dos casos estão associados a fatores de risco modificáveis. Isso significa que as escolhas do dia a dia têm um peso enorme no destino do seu coração.
1. Consulta cardiológica preventiva desde os 20 anos
A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que jovens saudáveis façam a primeira consulta com cardiologista aos 20 anos. Não espere ter sintomas. A avaliação inclui verificação de pressão, análise do colesterol, eletrocardiograma e uma conversa sobre histórico familiar, suficiente para identificar riscos que você nem sabia que tinha.
2. Movimento como remédio
Trinta minutos de atividade física moderada, cinco vezes por semana, são suficientes para reduzir significativamente o risco cardiovascular. Não precisa ser academia, pode ser caminhada, bicicleta, dança, natação. O que você fizer com consistência já faz diferença.
3. Alimentação que protege o coração
Reduza ultraprocessados, embutidos, frituras e açúcar. Aumente o consumo de vegetais, peixes, oleaginosas, azeite e fibras. Isso não é dieta, é cuidado com a estrutura que mantém você vivo.
4. Largue o cigarro. Qualquer cigarro.
Isso inclui o vape. Não existe nível seguro de tabagismo para o coração.
5. Controle o estresse de forma ativa
Sono de qualidade, pausas reais durante o trabalho, atividades de lazer, conexões sociais genuínas. O coração responde ao que você sente. Cuide da saúde mental com a mesma seriedade que cuida da física.
6. Monitore os números que importam
Pressão arterial, glicemia em jejum, colesterol total, LDL e HDL. Se algum desses valores estiver alterado, trate, independentemente da sua idade.
Quando procurar um cardiologista com urgência
Além das consultas preventivas regulares, alguns sinais devem levar você a buscar avaliação cardiológica o quanto antes:
- Dor ou pressão no peito, mesmo que passageira;
- Falta de ar durante atividades que antes fazia sem dificuldade;
- Palpitações frequentes ou irregulares;
- Desmaio ou sensação de desmaio sem causa aparente;
- Histórico familiar de infarto ou morte súbita em parentes jovens;
- Diagnóstico recente de hipertensão, diabetes ou colesterol alto.
Uma reflexão final
O coração começa a acumular os efeitos dos nossos hábitos muito antes de qualquer sintoma aparecer. As placas nas artérias se formam aos poucos, ao longo de anos. O processo silencioso que leva a um infarto aos 35 começa, muitas vezes, aos 20.
Por isso, a prevenção não é um assunto para depois dos 50. É uma construção diária que começa agora.
Sociedade Brasileira de Cardiologia
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Entender melhor a sua condição cardiovascular e traçar um caminho rumo à saúde e à qualidade de vida, é isso que busco em cada consulta. Com uma abordagem integrativa, ofereço orientações especializadas que consideram você como um todo, não apenas os seus exames. Entre em contato e dê início a essa transformação.
CRM 38908
Cardiologia — RQE 43247
Clínica Médica — RQE 43246
