Pré-treino faz mal para o coração?

Pré-treino pode acelerar batimentos, elevar pressão e causar arritmias. Dr. Rodrigo Di Mingo explica quem pode usar, os riscos e como se proteger.

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Nos últimos anos, casos de mal súbito e parada cardíaca em academias têm chamado atenção, e o uso de suplementos pré-treino aparece em muitos desses episódios. Em abril de 2025, o caso de uma jovem que morreu após passar mal em uma academia na Paraíba logo após usar pré-treino gerou repercussão nacional e reacendeu um debate que a medicina cardiovascular já vem travando há anos.

A pergunta que me fazem com frequência é direta: pré-treino faz mal para o coração?

A resposta honesta é: depende, mas os riscos são mais sérios do que a maioria imagina.

O que é o pré-treino e o que ele faz no seu corpo

Pré-treino é um suplemento formulado para ser tomado antes do exercício com o objetivo de aumentar energia, foco, resistência e força. É vendido em forma de pó ou cápsulas, geralmente com sabores e embalagens que prometem resultados extraordinários.

A composição varia muito entre marcas e fórmulas, mas quase todos compartilham um denominador comum: substâncias estimulantes que ativam o sistema nervoso simpático, o mesmo sistema que coloca o corpo em “modo de alerta” diante de uma ameaça.

Os ingredientes mais comuns incluem:

  • Cafeína: em doses que podem ultrapassar 300 mg por porção (equivalente a mais de 3 xícaras de café expresso);
  • Beta-alanina: aminoácido que reduz a fadiga muscular;
  • Creatina: auxilia na explosão de força;
  • Arginina e citrulina: vasodilatadores que aumentam o fluxo sanguíneo;
  • Yohimbina: alcaloide com efeito vasoconstritor e estimulante;
  • Sinefrina: extraída da laranja amarga, com ação adrenérgica intensa;
  • Taurina, tirosina, teobromina: em combinações nem sempre com respaldo científico sólido.

O resultado dessa mistura no organismo é uma estimulação cardiovascular real e mensurável: frequência cardíaca acelerada, pressão arterial elevada, vasoconstrição. Em pessoas saudáveis e com dosagem adequada, esses efeitos podem ser tolerados. Em contextos de risco, treino intenso, calor, desidratação, predisposição cardíaca, esse mesmo estímulo pode ser o gatilho para algo muito mais sério.

Como o pré-treino afeta o coração especificamente

Quando você toma um pré-treino, os estimulantes presentes na fórmula ativam receptores adrenérgicos, liberando adrenalina e noradrenalina no organismo. O resultado é parecido com o que seu corpo faria diante de uma situação de estresse agudo:

  • Frequência cardíaca aumenta: o coração bate mais rápido e com mais força;
  • Pressão arterial sobe: as artérias se contraem e o volume de sangue bombeado por minuto cresce;
  • Demanda de oxigênio do miocárdio aumenta: o coração precisa de mais combustível para sustentar esse ritmo;
  • Risco de arritmias cresce: a excitabilidade elétrica do músculo cardíaco sobe.

Em condições normais de repouso, esse estímulo já é considerável. Combinado com um treino intenso, em um ambiente quente, com o corpo desidratado e sem alimentação adequada, a sobrecarga se multiplica.

O que muitos não sabem é que alguns problemas cardíacos só se revelam sob estresse extremo. Uma arritmia que nunca apareceu no eletrocardiograma em repouso pode surgir justamente nesse pico de estimulação. Uma coronária com estreitamento discreto, que nunca causou sintoma algum, pode ser insuficiente para suprir a demanda de um coração acelerado pelo pré-treino combinado com o exercício.

Os ingredientes que mais preocupam

Nem todos os componentes dos pré-treinos têm o mesmo perfil de risco. Alguns são bem estudados e relativamente seguros em doses adequadas. Outros têm histórico documentado de complicações cardiovasculares graves.

Cafeína em doses elevadas

A cafeína é, de longe, o estimulante mais presente. Em quantidades moderadas (até 200 mg), tem boa tolerabilidade na maioria dos adultos saudáveis. O problema é que muitos pré-treinos chegam a 300–400 mg por dose — e quem combina isso com café, energético ou outro suplemento pode facilmente ultrapassar o dobro dessa quantidade em poucas horas.

Acima de certos limites, a cafeína pode provocar taquicardia, extrassístoles, elevação expressiva da pressão arterial e, em casos raros mas documentados, arritmias graves.

Yohimbina

Extraída da casca de uma árvore africana, a yohimbina é um potente vasoconstritor e estimulante do sistema nervoso central. Está associada a casos de ansiedade intensa, tremores, hipertensão e arritmias. É proibida em alguns países europeus e há relatos de complicações cardiovasculares sérias associadas ao seu uso, mesmo em pessoas sem histórico cardíaco conhecido.

Sinefrina

Presente em extratos de laranja amarga (Citrus aurantium), a sinefrina tem ação adrenérgica semelhante à efedrina. Em doses altas ou combinada com outros estimulantes, pode causar taquicardia, elevação brusca da pressão e risco de arritmias.

Substâncias banidas que ainda circulam no mercado

Este é um ponto que me preocupa muito no consultório: alguns produtos vendidos no Brasil, especialmente importados ou sem registro, contêm substâncias proibidas, ora com nomes técnicos que o consumidor comum não reconhece, ora disfarçadas em “blends proprietários” que não discriminam os ingredientes no rótulo.

Quem está em maior risco

O pré-treino pode ser perigoso para praticamente qualquer pessoa em determinadas circunstâncias. Mas alguns perfis merecem atenção especial e, na minha avaliação, não deveriam usar esses suplementos sem autorização médica explícita:

  • Pessoas com hipertensão arterial, mesmo que controlada com medicação;
  • Quem tem histórico de arritmias, palpitações frequentes ou já teve episódios de coração disparado;
  • Pacientes com doença coronariana ou histórico de infarto;
  • Quem tem histórico familiar de morte súbita, infarto antes dos 50 anos ou cardiopatia congênita;
  • Pessoas com diabetes, especialmente com comprometimento cardiovascular associado;
  • Quem usa medicamentos que interferem no ritmo cardíaco ou na pressão, betabloqueadores, antidepressivos, diuréticos, vasodilatadores;
  • Pacientes com hipertireoidismo ou outras condições que já aceleram o metabolismo naturalmente;
  • Quem tem ansiedade ou transtornos de pânico, a estimulação adrenérgica do pré-treino pode desencadear crises intensas.

E há um grupo que me preocupa especialmente: jovens que não fizeram avaliação cardiológica nunca, treinam pesado e usam pré-treino sem qualquer orientação. Cardiopatias congênitas, miocardite subclínica e síndromes arrítmicas hereditárias são condições silenciosas que só se manifestam sob estresse cardiovascular extremo. E o pré-treino combinado com treino intenso pode ser exatamente esse gatilho.

Sintomas que nunca devem ser ignorados

Se você já usou ou usa pré-treino e apresentou qualquer um dos sintomas abaixo, procure avaliação cardiológica:

  • Coração acelerado ou “disparado” durante ou após o uso, mesmo sem esforço intenso;
  • Sensação de batimentos irregulares ou “pulos” no peito;
  • Dor ou aperto no peito durante o treino;
  • Tontura, visão turva ou sensação de desmaio;
  • Falta de ar desproporcional ao esforço realizado;
  • Tremores, agitação intensa ou ansiedade que persistem horas após o treino;
  • Dor de cabeça muito intensa logo após o consumo;
  • Insônia recorrente mesmo quando o pré-treino é tomado horas antes de dormir.

Esses sinais não são “efeitos colaterais normais”. São alertas do sistema cardiovascular que merecem investigação.

Pré-treino pode ser usado com segurança?

Sim, mas com as ressalvas.

Para pessoas saudáveis, sem fatores de risco, com exames cardiológicos em dia e que treinam em intensidade moderada, o uso eventual de pré-treinos formulados com ingredientes conhecidos e em doses adequadas pode ser feito com relativa segurança. A palavra-chave é avaliação prévia.

Alguns cuidados práticos que oriento:

  • Nunca combine pré-treino com energético, café extra ou termogênico no mesmo período;
  • Evite usar em jejum ou com o corpo desidratado;
  • Não dobre a dose se sentir que “o efeito fraquejou”, isso é sinal de tolerância, não de segurança;
  • Prefira produtos com rótulo claro, com todos os ingredientes e doses discriminados, e com registro na ANVISA;
  • Comece com metade da dose recomendada para avaliar sua resposta individual;
  • Não treine sob calor extremo após o uso, a combinação eleva a sobrecarga cardiovascular de forma significativa.

E, acima de tudo: faça uma avaliação cardiológica antes de iniciar o uso, especialmente se você treina com frequência ou em alta intensidade.

Cuide do seu coração com quem entende

Agendar uma consulta comigo é o primeiro passo para entender melhor sua condição cardiovascular e começar um caminho rumo à performance com segurança. Com uma abordagem integrativa, o acompanhamento considera não só os seus exames, mas o seu estilo de vida, seus objetivos de treino e tudo que pode estar colocando seu coração em risco sem que você saiba.

Entre em contato e dê início a essa transformação.


Dr. Rodrigo Di Mingo
Médico cardiologista com abordagem integrativa

CRM 38908 | Cardiologia – RQE 43247 | Clínica Médica – RQE 43246

Texto baseado em evidências clínicas e posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre suplementação e atividade física. Para dúvidas específicas sobre seu caso, agende uma consulta.

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