Mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com obesidade, segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia, e a prevalência mais que dobrou desde 1990. Preocupa porque é subestimada. Porque muita gente ainda trata o excesso de peso como questão estética, não como uma doença crônica que deteriora silenciosamente o sistema cardiovascular.
E os números são contundentes: 67,5% das mortes relacionadas ao excesso de peso são atribuíveis a doenças cardiovasculares. Não a câncer, não a diabetes, não a doenças articulares. Ao coração.
Tratar a obesidade, portanto, não é só questão de estética ou de número na balança. É prevenção cardiovascular, e das mais eficazes que existem.
Por que a obesidade prejudica o coração?
A gordura visceral não é um depósito passivo, ela produz hormônios e substâncias inflamatórias que circulam pelo sangue e agredirem o coração e as artérias de forma contínua. Essa inflamação sistêmica de baixo grau desencadeia uma série de problemas em cascata: eleva o colesterol ruim e favorece a formação de placas coronárias que podem provocar infarto; aumenta o volume sanguíneo e a resistência vascular, instalando a hipertensão; interfere na ação da insulina, abrindo caminho para o diabetes tipo 2, que por sua vez acelera ainda mais a aterosclerose.
Com o tempo, o coração sobrecarregado começa a se remodelar de forma desfavorável, podendo evoluir para insuficiência cardíaca.
O mito do “obeso saudável”
Esse é um ponto que precisa ser desmistificado com cuidado, e com empatia.
Existe um grupo de pessoas com excesso de peso que apresenta exames laboratoriais dentro da normalidade: glicemia normal, colesterol no limite, pressão controlada. Esse perfil costuma ser chamado de “obeso metabolicamente saudável”, e costuma ser usado para justificar o não tratamento.
O problema é que esse estado de “saúde” é transitório. Estudos demonstram que o obeso metabolicamente saudável tem risco aumentado de desenvolver diabetes, hipertensão, dislipidemia e gordura no fígado ao longo do tempo, condições que são, todas, fatores de risco diretos para doenças cardiovasculares.
Além disso, a gordura visceral exerce efeito direto sobre o coração independentemente dos outros fatores. Isso significa que uma pessoa pode ter exames normais e ainda assim ter alterações estruturais cardíacas relacionadas ao peso, que só aparecem em exames de imagem mais detalhados, como o ecocardiograma.
Obesidade com ou sem doença associada é uma doença crônica que merece tratamento.
Quanto de diferença o tratamento faz
A resposta a essa pergunta é uma das mais animadoras da cardiologia preventiva.
Com mudanças consistentes de estilo de vida, controle alimentar e atividade física regular, é possível reduzir em até 58% o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, segundo dados do HCor. Mesmo uma perda de 5% a 10% do peso corporal já produz melhoras significativas na pressão arterial, no colesterol, na glicemia e na função cardíaca.
E com o avanço do arsenal terapêutico disponível hoje, as perspectivas são ainda melhores.
As opções de tratamento da obesidade hoje
O tratamento da obesidade deixou de ser apenas “dieta e exercício”. Isso ainda é a base, e insubstituível. Mas existe hoje um conjunto robusto de intervenções que, combinadas de forma personalizada, permitem resultados consistentes e duradouros.
O papel do cardiologista no tratamento da obesidade
As novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (ABESO) recomendam que todo adulto com sobrepeso ou obesidade seja avaliado quanto ao risco cardiovascular, e que esse risco oriente o tratamento. O cardiologista tem papel central nessa avaliação, que inclui:
- Estratificação do risco de doença aterosclerótica cardiovascular (DAC, AVC, doença vascular periférica);
- Avaliação do risco de insuficiência cardíaca, incluindo a dosagem de peptídeos atriais (BNP ou NT-proBNP) quando indicado;
- Rastreamento de diabetes, hipertensão, fibrilação atrial e apneia obstrutiva do sono;
- Orientação sobre a estratégia terapêutica mais adequada ao perfil de risco individual;
Esse olhar integrado, que trata a obesidade como doença cardiovascular, é exatamente o que faz diferença entre prevenir e remediar.
Uma reflexão necessária
Entre as seis doenças que mais matam no Brasil, quatro estão relacionadas à obesidade. AVC, infarto, diabetes e hipertensão não aparecem do nada. Eles se constroem ao longo de anos, e a obesidade não tratada é um dos principais construtores.
Tratar a obesidade, portanto, não é vaidade. É intervenção cardiovascular. É prevenção de infarto. É qualidade de vida. É tempo de vida.
E o melhor momento para começar esse cuidado é antes que o coração precise avisar.
ABESO, Sociedade Brasileira de Cardiologia
Cuide do seu coração com quem entende
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Dr. Rodrigo Di Mingo
Médico cardiologista com abordagem integrativa
CRM 38908 | Cardiologia – RQE 43247 | Clínica Médica – RQE 43246
Texto embasado nas Diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia para obesidade e doenças cardiovasculares (2024), nas recomendações da ABESO e da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
